A
César o que é da etologia no Brasil
(entrevista César Ades - 17 de novembro
de 2007)
Pra
quem é do métier, ele dispensa apresentações.
Pro resto de nós, vale saber que César Ades é uma
das melhores e primeiras referências brasileiras em comportamento
animal. Entrevistado em São José do Rio Preto, César
fala da história da disciplina no Brasil, de gentes e bichos, e
de quebra navega pela música e pela literatura. Participaram o
psicólogo Dida Mendes, da Católica de Goiás, e o
biólogo Rui Oliveira, presidente da Sociedade Portuguesa de Etologia.
Com a palavra, César Ades (Beto
Vianna).
César - Lembro de gostar de animais quando criança,
e de ganhar o livro A vida das aranhas, de um entomólogo
francês chamado [Jean-Henri] Fabre. Ainda tenho esse livro. Foi
bonito, porque eu não tinha nenhuma idéia de etologia, e
a própria etologia não tinha se estabelecido...
Dida Mendes - Tá se entregando, César...
(risos).
César - Era um manuscrito em pergaminho (risos).
Nasci no Cairo,
Egito. Quando eu tinha uns 13 anos fui passar as férias numa casa
a beira-mar, e encontro uma aranha que tinha feito uma teia maravilhosa...
aí fui virando instintivamente um etólogo... Catando inseto,
jogando porcarias para ver o que eles faziam...
Beto - É verdade que todo etólogo gosta
de bicho quando é pequeno?
César - Olha, o [Niko] Tinbergen foi membro de uma associação
que tinha na Holanda, “Amigos da natureza”, um tipo de escotismo,
com expedições... E tem os gansos na infância do [Konrad]
Lorenz. Ele leu um livro que eu também li quando criança,
As aventuras de Niels Holgersson. A história de um menino que subia
nas costas de um ganso, que migrava e o menino ia conhecendo as coisas...
Então tem essa afinidade com os animais, que não significa
que você não tenha afinidade com seres humanos. Não
é uma coisa que te torna insensível.
Beto - Fala um pouquinho da história da etologia
no Brasil.
César - Estou trabalhando num projeto de resgate
das primeiras observações de vida animal no Brasil. Tem
um cara que chama Alexandre Rodrigues Ferreira, primeiro naturalista luso-brasileiro,
do século 18, que fez uma “viagem filosófica”
pelo Brasil. Eu visitei o museu de Coimbra, que tem as coletas dele. Ele
mandava pra lá, mas o Cuvier roubou tudo que ele tinha (risos).
Depois você tem grandes nomes, que faziam observações
que tinham a ver com etologia, como o Mário Autuori. Em 1951 ele
participa do simpósio L´Instinct, na França, e descreve
as saúvas, que fascinaram também o Walter Cunha.
Beto - Em que época o Walter começou a
dar aula de comportamento animal?
César - Nos anos 60. Havia uma cadeira de psicologia
na USP, da Dona Annita de Castilho Marcondes Cabral, e o Walter foi assistente
dela. Ele tinha feito umas experiências na parede da casa dele,
onde à noite desciam as formigas Paratrechina fulva e ele observava
tudo. Viajou para os EUA e entrou em contato com o entomólogo [Charles]
Michener. Quando voltou, disse pra Dona Annita: “É com isso
que eu quero trabalhar”. Havia uma matéria no currículo
da graduação, “psicologia comparativa e animal”.
Aí a Lourdes Pavan disse, “Ô Walter, cê não
quer pegar essa matéria, eu sei que cê gosta de bicho”.
Ele então deu a matéria com gosto, e um grupo de alunos
foi junto... eu também. Era a época da gestalt, éramos
todos gestaltistas. No terceiro ano tive psicologia comparativa com o
Walter, e lemos The study of instinct, do Tinbergen, um livro importantíssimo...
Bom, aí preciso voltar no tempo. No último ano do ensino
francês, eu fiz a classe de filosofia, que é uma coisa excepcional,
porque você estuda filosofia no duro: lógica, metafísica,
moral e psicologia.
Beto - A psicologia dentro da filosofia? Era uma filosofia
da mente?
César - Isso, não era uma psicologia científica.
E eu me entusiasmei por filosofia, tive uma excelente professora, que
quase foi minha aluna depois.. coisas curiosas. Eu saio desse último
ano e digo “O que eu vou fazer agora?”. Beto - Você
já estava aqui no Brasil?
César - Aqui no Brasil. É mais complicado
que isso, mas eu tô resumindo.
Dida - Isso é o resumo! (risos).
César - Me diziam que era ridículo fazer psicologia, havia
só três cursos no Brasil, não tinha reconhecimento
da profissão. E eu pensei, eu gosto de biologia porque eu vou dar
conta desse negócio das aranhas. Eu lia livros de divulgação
de biologia, como o Jean Roustain, um biólogo francês que
estudou sapos, e comecei a ler sobre história natural, Darwin,
a teoria da evolução. Eu estava em dúvida entre biologia
e filosofia, e tinha essa psicologia que eu tinha visto. Decidi fazer
psicologia, e foi uma excelente escolha porque eu logo percebi que o filósofo
trabalha com as idéias e não com o empírico.
Beto - Diz o Schopenhauer que filósofo lê
tanto que não sobra tempo pra pensar.
César - E para observar as coisas, então?
(risos). E achei a biologia um pouco seca pro meu gosto. Fiz psicologia,
e a parte de condicionamento operante também me encantou. Era um
animal aprendendo!
Beto - A leitura e a prática laboratorial eram behavioristas, né?
César - Sim, skinneriana, com rato e tudo. Lembro
da minha primeira aula com o rato. O professor, o Gil Sherman, trouxe
uma caixa de Skinner pra medir o nível operante, mostrar que o
reforço aumenta a freqüência da resposta de pressionar
a barra. “Vocês observam o animal meia hora e me digam quantas
vezes ele pressiona a barra”. Aí eu vi o rato fazendo coisas
de arrepiar! Ele defecou (tava com medo, naquele ambiente) as fezes caíram,
tentou pescar o cocô com a pata, farejou, parou se se coçar,
se lambeu, deu uma focinhada na barra... e eu escrevi tudo isso! E o Sherman:
“Não é nada disso! É só me dizer quantas
vezes ele pressionou a barra!” (muitos risos). Eu gosto desse lance
porque mostra que quando uma teoria te impede de ter um contato informal
com o animal, bom, você vai medir, mas vai perder um monte de coisa.
Comecei a me interessar pelo que o rato fazia quando não tinha
nada que fazer.
Dida - Um olhar etológico.
César - É, não tinha jeito. Meu
primeiro artigo, de 65, era sobre o comportamento exploratório.
Era espantoso, na época, porque saía das teorias que eu
conhecia. Eram teorias de redução de necessidade, as teorias
do [Clarck] Hull, uma coisa que um animal faz para conseguir uma recompensa
e diminuir o estado de necessidade. E no comportamento exploratório,
não tem nada disso. Acontece quando uma novidade surge, o animal
explora diante da novidade e adquire o conhecimento sobre o ambiente dele,
sem que haja reforço.
Beto - Você mencionou vários psicólogos,
Dona Annita, o Walter, você... cadê os biólogos nessa
história? A etologia não é também ligada à
zoologia?
César - Isso é muito interessante. Tinha o Paulo Nogueira
Neto, que se interessava por abelhas. A história dele é
fantástica. Formado em direito, passava o tempo livre observando
abelhas, aí ele encontra o Paulo Vanzolini...
Beto - O compositor?
César (cantando) - “Reconhece
a queda, e não desanima.” (todos cantam) “levanta sacode
a poeira e dá volta por cima”. Nessa música, ele tinha
acabado de perder um filho, e desafia qualquer um a não chorar
nessa situação.
Beto - Você conheceu o Vanzolini?
César - Ele foi da minha banca de doutorado. Havia
os biólogos, naturalistas, quem fizesse observação
de animais. O que não havia era uma entrada no sistema, uma formalização.
É gozado, mas essas coisas são importantes. Então
o Walter começou, e a turma da qual eu fiz parte também
foi especial, era gente que tava preparada. Dá uma boa reflexão.
Por que na psicologia?
Dida - Mas até hoje a psicologia tem a amioria
doos cursos de pós em etologia... César - Sim, mas você
tem o pessoal de BH na zoologia, Juiz de Fora também...
Dida - Mas geralmente, são os biólogos
que vão estudar etologia na psicologia.
César - Tem a ver com a origem da etologia. O Lorenz foi dono de
uma cadeira de psicologia, e sabia tudo dos psicólogos da época.
Agora, quando o [Daniel] Lehrman o atacou, ele ficou com uma raiva...
E quando anunciaram o prêmio Nobel, parece que a primeira coisa
que ele disse foi: “Bem feito pros psicólogos” (risos).
Mas no fundo ele se interessava por mecanismos psicológicos. As
teorias do instinto, você vai encontrar na história da psicologia.
Beto - Voltando ao Lehrman, parece que a crítica
dele ao Lorenz é um pouco diferente do debate com o behaviorismo,
não é? É uma crítica à noção
de inato.
César - O medo diante do perigo de você
dizer que um comportamento é instintivo. E a grande novidade que
a etologia trazia era justamente essa.
Beto - E em Portugal, Rui, quando começou?
Rui - Nos anos 70. A primeira pessoa foi, curiosamente, um psiquiatria,
o António Bracinha Vieira que já se retirou, e hoje em dia
escreve novelas. Ele criou a cadeira de etologia num curso de antropologia,
na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova
de Lisboa. Paralelamente, o Luis Soczka, com doutorado em comportamento
social de primatas em Göttingen, começou uma cadeira de etologia
no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade do Porto.
A etologia surge com mais força em 86, quando o pessoal da psicologia
e da biologia (o Instituto Superior de Psicologia Aplicada e a Faculdade
de Ciências) se juntou e fez um curso livre de etologia. Na seqüência
desse curso constituiu-se a Sociedade Portuguesa de Etologia e a cadeira
de etologia no ISPA. Há poucas cadeiras de etologia na zoologia,
mas quase todos os cursos de psicologia oferecem, curiosamente.
César - É mais do que uma coincidência,
tanto a origem cá, quanto lá...
Rui - Tem a ver com o evoluir da biologia, em que há
uma polarização, por um lado o estudo das populações
e da biologia da conservação, e por outro uma atração
para a área molecular, e, a nível do comportamento, as neurociências.
O que é do organismo praticamente se esvaziou. O etólogo
que tem um interesse no organismo em si, ficou sem lugar, e isso não
só em termos de oferta de cursos. Nos painéis de avaliação
na agência de financiamento, quem trabalha em etologia não
sabe para onde mandar os seus projetos.
Dida - Outro detalhe é que a mensuração
do comportamento é um pouco diferente do que o biólogo está
acostumado a fazer. Você não tem uma régua pra medir
o comportamento, né? Apesar da gente ter os métodos...
Rui - ... não tem a máquina pra medir.
Dida - Talvez os biólogos tenham um certo preconceito.
Até hoje eu escuto isso: “isso não é ciência,
isso é pra ficar observando e anotando”.
César - Em 73 dei um curso de etologia num congresso
de zoologia, e era uma coisa impressionante o quanto a sala lotou. Sabe,
parece que você tava trazendo uma coisa que os alunos de biologia
queriam ouvir. A coisa nasce na psicologia mas no entanto ela atende a
um desejo do aluno de biologia.
Rui - 80 a 90 por cento dos alunos que procuram a nossa
pós-graduação são biólogos. E agora
que há lá esse programa de neurociências, o pessoal
acrescentou neurociências e comportamento, estão tentando
levar pra lá, não é?
César - Em termos de história da ciência
você tem assuntos que polarizam e mobilizam muita gente, e mobilizam
muita verba. E é natural que um cientista que vá começar
sua carreira olhe pro lado mais promissor.
Beto - Mas tem um “desvínculo” aí,
né? Entre o que o estudante quer e a formalização.
Você não acha que a etologia atrai sem o estatuto formal,
talvez pela emoção do estudante de biologia, que sente falta
de estudar o organismo?
César - Acho que há algo mais. Que o estudante
partilha do entusiasmo da gente... Sabe, é que a gente se dá
conta de que se você não olha o comportamento do animal,
você não completou a compreensão biológica
dele. Uma coisa é estudar o ser humano, que ficou muito tempo separado
do animal, cartesianamente, mas o biólogo tem mais esse contato
com o animal. Eu fiz um estudo, perguntando a estudantes de psicologia
e biologia o quanto eles atribuíam de mente a uma série
de animais. Usei várias perguntas: como o animal se sai no labirinto,
o quanto se reconhece no espelho, sente dor, sente saudade, nossa emoção-mor...
E aí você vê uma coisa curiosa. O estudante de biologia
sempre dava um ponto a mais ao animal, em capacidade, em sensação...
Beto - E no entanto é na psicologia, mais propensa
a frisar a diferença, que nasce o estudo do comportamental animal...
Rui - É que, ao contrário da biologia,
onde há uma maior homogeinização do que é
aceito como forma de construir o conhecimento, na psicologia há
essas diferentes correntes, diferentes escolas de idéias, e isso
talvez justifique que haja uma maior aceitação de que ali
haja uma escola como a etologia.
César - Tanto que eu estudei aranhas, né?
Imagine, um doutorado defendido num instituto de psicologia e... aranhas!
Um ser de pesadelo! (risos) Então o que o Rui tá falando
talvez seja um uma das razões, mas não é só
essa. Eu acho que há na psicologia um problema que não foi
resolvido, sabe? A psicologia vive com uma série de problemas não
resolvidos, e um deles é a origem biológica do comportamento.
Não é verdade que, quando a etologia surgiu, os psicólogos
falaram: “Olha! A gente não tinha pensado nisso”. O
primeiro brasileiro a publicar um livro de psicologia, no século
19, Eduardo Ferreira França, um médico da Bahia, dedicou
dois capítulos do livro dele aos instintos. Então, é
simplesmente errado achar que a etologia inaugurou o estudo do instinto.
Rui - É a época do [Georges] Romanes, não
é isso? E outros...
César - O Darwin foi importante nessa época,
né? Quando nós criamos a pós-graduação
de neurociências e comportamento na USP, esse “e comportamento”
foi por minha conta (risos). Porque havia o pessoal da linha mais dura.
O César Timo-Iaria, o grande fisiologista que nós tivemos,
me chamou num canto e disse: “O comportamento é uma função
superior do sistema nervoso, não nego isso. Mas porque você
quer criar uma redundância que diz, neurociências, de um lado,
e comportamento?” Mas existe uma identificação com
a sociedade que é necessária, e se você coloca comportamento,
você atrai mais gente. E agora estão querendo tirar o nome
“comportamento”...
Dida - Se é pra tirar o redundante, melhor deixar
só “comportamento” (risos).
Beto - Vocês insistem em falar só de ciência aqui,
mas, segundo o Rui, o precursor da etologia em Portugal agora escreve
romances.
Rui - Doutor Fausto foi seu primeiro livro.
Beto - Temos o Paulo Vanzolini, grande compositor, o
Dida toca rock progressivo (risos)...
Dida - ... e o César é gaitista.
Beto - César, você perguntou ao Walter,
em uma entrevista em 90, se ele lia Machado de Assis. E você? Gosta
de Machado? Cultura também é etologia?
César - Me apresentaram aqui [no XXV Encontro
de Etologia] um professor de literatura hispano-americana, e eu perguntei:
“Dos autores que você ensina, quais você acha fundamentais?”
Ele disse os nomes que eu diria: Jorge Luis Borges e Gabriel García
Márquez. O Gabriel eu acho um gênio da narrativa, ele vive
no meio das pessoas, lembra das coisas e faz disso narrativas incríveis.
E o Borges nunca olhou pras pessoas, só pros livros (risos). Ficar
só no teu campo de investigação pode até ser
interessante, mas como pessoa, é preciso ter contatos diferentes,
perceber linguagens diferentes. Pra mim, a música é uma
linguagem que sobrepuja as outras todas, sobrepuja a própria linguagem.
Dida - Isso quer dizer que você vai comprar meu
CD, então?
César - Estamos falando de coisas elevadas! (risos)
Me lembro na casa do Rui, ficamos falando de autores portugueses, e ele
quis me convencer que o António Lobo Antunes é melhor que
o Saramago.
Rui - E não consegui. (risos)
César - Eu estive na Festa Literária Internacional,
de Parati, e encontrei um autor que me impressionou muito. Um professor
de biologia...
Rui - Mia Couto. Moçambicano.
César - O Mia Couto. Ele queria mexer com comportamento
animal, mas ele não tinha condições...
Rui - Sim. Eu tenho um livro muito engraçado que
é uma recolha de lendas locais de Moçambique ligadas à
conservação... mostra práticas tradicionais que em
última análise acabam dando sustentabilidade à interação
entre populações de espécies locais, como por exemplo,
ter um tabu para não apanhar carangueijo ao luar... isso faz com
que dê pro carangueijo se reproduzir...
César - Pois então. O Mia Couto é
o caso que explica porque a gente deve ler Machado. Isso não quer
dizer que o Mia Couto fale só de temas biológicos...
Dida - O grande tema da literatura é o comportamento
humano. Faz sentido para os psicólogos.
César - Mas quando você me pergunta por
que ler Machado... eu não acho que você necessariamente vai
ser melhor etólogo por ler Machado de Assis.
Rui - Mas se ler Lobo Antunes, vai (risos, risos, risos...).
|