George Cardoso
Jornalista e armenguêro cultural. Baiano-mineiro de São
Jorge dos Ilhéus (BA), reside em Belo Horizonte (MG)
http://armengue.wordpress.com/
Cinzas. São cinzas os dois pares de olhos que vigiam a cidade. Íris
de concreto que avistam o horizonte sobre edifícios, corpos e almas.
Irmão um do outro, da mesma tribo. Talvez, pai e filho; não
se sabe... Muitas pessoas circulam pelo centro da capital mineira; eles vigiam.
Um mendigo pede esmolas, na esquina; vigiam. Numa ação rápida
e cotidiana, o pivete, movido à cola, assalta o senhor aposentado.
Dinheiro escasso e parco do velho, agora, já foi, mas... Continuam
vigiando. Um homem em conflito existencial... Muitos estão. Assim,
sob olhares, o tédio, o avesso da fé, consome a cidade. Doa
a quem doer, esse sentimento martiriza e é capaz de destruir a esperança
de cada um. No entanto, eles continuam em vigília, imóveis,
sérios, uma cultura muito antiga, para além dos cento e poucos
anos da cidade. Edifício Rotary, 17h37. Sol a pino, tarde duma sexta-feira.
O forte calor derrete pensamentos, sentimentos, o amor, que muitos crêem
que é capaz de dar asas à vida. Alguém elege o dia. “A
vida é essa: subir Bahia e descer Floresta”, diz certo compositor
no monumento. Um homem é contra e, vindo
do céu, desce a Bahia, na contramão do verso, da vida. Fisicamente,
o edifício não parece com a torre de Minos, mas... Só os
três viram Dédalo varar as nuvens. Ecoa um grito: aaaaaaaaaaaaaaaahhhh,
plaft! No raio de poucos metros a terra treme. Muitas pessoas viram, inclusive
eles, os dois. Um corpo se chocou contra a onda de asfalto, entre transeuntes
e automóveis. O que um dia foi vida, esperança, sonho... Hoje é nada.
Uma alma vagueia sob olhares sentenciosos deles. Crânio rachado, miolos
de fora, fêmur fraturado que dilacera a carne, sangue, muito sangue.
Venha degustar à noite nosso delicioso rodízio de massas. É a
oferta do La Gréppia. Ao contrário das outras pessoas e de
você, eles não torcem os narizes nem mudam de expressão.
Estão sempre ali, parados, observando tudo. Sirenes ressoam em meio
a um turbilhão de vozes. Muitos curiosos chegam perto para assistir à desgraça,
como acontece nos dias do clássico Galo-Cruzeiro, diante das televisões
dos muitos bares da radicional travessia. A polícia toma conta do
local, tenta controlar a situação causada por um homem sem
controle. Aguardam a perícia. Até eles, que vigiam, estão
sempre a aguardar. Só pode ser mulher ou dívida, arrisca o
palpite popular. Causa? Como um rio que desce uma das muitas serras de Minas,
o melado vermelho escorre pela rua afora e... 17h59. Mesmo chorando por causa
do ocorrido – é, porque ela chora por tudo! -, a “Santa” está ansiosa
pela atenção dos seus fiéis. Uma senhora muito idosa
passa na esquina com a avenida Augusto de Lima. A Dona Maria veste-se como
um tabuleiro de xadrez, preto no branco, e traz um rosário pendurado
no peito. Balbucia algumas palavras e gesticula... Em nome do pai, do filho
e do espírito santo, amém. CCBH*. Muitas vezes a velha já presenciou
a cena que insiste em repetir, de tempo em tempo. Acontece que, agora, erraram
o endereço. Eles, os dois, foram contrariados. Sim, parece que os
cinzentos não gostam de serem preteridos. Mas ela, que reza intimamente
e chora, já conhece toda a história, desde o tempo de menina,
virgem e ingênua, já testemunhara fatos semelhantes a esse.
A anciã de hoje faz idéia do porquê homens e mulheres
cometem essa aventura para o esquecimento. Fazem isso... Por influência
do mito, dos índios, da dor do tédio, morrem... E sobram os
Acaiacas, a imagem alterosa das desilusões.

Centro
de Cultura Belo Horizonte – construído em 1914, em estilo
neogótico, o prédio tombado já foi sede da Câmara
Municipal, da PRC-7 Rádio Mineira, primeira de Belo Horizonte, Museu
de Mineralogia, Instituto Histórico-Geográfico de Minas Gerais,
e sediou sessões da Academia Mineira de Letras e a Semana Mineira
de Arte Moderna. Resumindo, já foi
muita coisa, menos igreja.