O
óbvio
Nelson Vaz* Em
uma importante reunião da SBPC, em 1977, Darcy Ribeiro fez uma
palestra que se tornou famosa, intitulada: "Sobre o óbvio",
que começava assim:
"Nosso tema
é o óbvio. Acho mesmo que os cientistas trabalham é
com o óbvio. O negócio deles – nosso negócio
– é lidar com o óbvio. Aparentemente, Deus é
muito treteiro, faz as coisas de forma tão recôndita e disfarçada
que se precisa desta categoria de gente – os cientistas –
para ir tirando os véus, desvendando, a fim de revelar a obviedade
do óbvio. O ruim deste procedimento é que parece um jogo
sem fim. De fato, só conseguimos desmascarar uma obviedade para
descobrir outras, mais óbvias ainda."
Parece óbvio
que o Sol se desloca pelo céu em torno da Terra, mas à custa
de muito sofrimento humano, aprendemos que não é isso o
que se passa, mas sim o oposto: a terra gira em volta do Sol.
Usamos nossas certezas mais arraigadas todo o tempo sem questioná-las
e elas configuram as realidades que vivemos. Um outro cientista famoso,
o neurobiólogo/filósofo chileno Humberto Maturana, discute
a dificuldade em questionar essas convicções, fala da "tentação
da certeza" (la tentación de la certidumbre). Duvidar de uma
dessas certezas nos torna inseguros, parece ameaçar nossa integridade.
As alucinações desagradáveis (bad trips) de muitos
usuários não familiares com drogas psicodélicas potentes,
como o LSD, surgem exatamente da quebra imprevista dessas certezas perceptivas.
Ilusões são maneiras eficazes e divertidas de questionar
nossas certezas, nas quais podemos incorrer sem o auxílio de drogas.
As ilusões visuais, ou "ilusões de ótica",
formam a imensa maioria das ilusões popularizadas, mas há
ilusões auditivas, táteis, olfativas, enfim, nossos sentidos
às vezes burlam nossas certezas. Muita pesquisa é dirigida
para as ilusões em busca de entender melhor o mecanismo normal
das percepções e essa não é uma tarefa fácil.
Quimicamente analisado, o aroma de abacaxi, por exemplo, mostra ser formado
por diversas substâncias voláteis que, unidas, criam em nós
o odor de abacaxi maduro. No entanto, a indústria de alimentos
utiliza compostos artificiais que, isoladamente, são capazes de
evocar na maioria das pessoas o odor de abacaxi, uma ilusão olfativa
comercialmente explorada.
As ilusões visuais são as mais numerosas e as mais chocantes.
Há na internet, diversas variedades da "ilusão da face
ôca" e uma das singelas é a do dragãozinho que
parece mover o pescoço para nos seguir. Muitos video-clips mostram
um pequenino dragão colorido feito de cartolina dobrada, que parece
mover o pescoço para seguir a câmera . A melhor experiência,
no entanto, é fazer o seu próprio modelo. Baixar da internet
um molde bidimensional do dragão , dobrá-lo de acordo com
as instruções, fechar um dos olhos e ver como é incrível:
ele move o pescoço e segue nosso movimento. Uma outra ilusão
da mesma classe (“face ôca”) mostra uma máscara
de Charlie Chaplin a girar . O incrível nesta ilusão é
que não conseguimos realmente ver o lado côncavo da máscara:
ele surge como um segundo lado convexo a girar no sentido oposto.
A maioria das pessoas acha tudo isso divertido, mas não se preocupa
seriamente em entender o que se passa, ou seja, por que esse pequeno dragão
de papel parece se mover? Ou, perguntando de outra forma, por que nossa
maneira de ver nos ilude e faz com que vejamos isso? A resposta é
uma lição de humildade: depois de vermos milhões
de faces convexas, não conseguimos aceitar a visão de uma
face côncava. Incorremos nesse primeiro equívoco de ver algo
côncavo como convexo e tudo o mais resulta dessa nossa primeira
opção. Aceitar que projetamos no mundo nossas certezas perceptivas
pode ser um primeiro passo contrário à "tentação
da certeza".
* Nelson Vaz é
doutor em bioquímica e imunologia pela UFMG, com pós-doutorado
pelo Instituto Pasteur, na França. É membro titular da Academia
Brasileira de Ciências, sócio-fundador da Sociedade Brasileira
de Imunologia e consultor das revistas Journal of Infectious Diseases e
Scandinavian Journal of Immunology. Escreveu, entre outros artigos, “Nas
mãos de imunologistas” (2006, aniversário de Antonio
Coutinho, Setúbal, Portugal), em que discute o papel dos cientistas
na configuração de um “sistema imune cognitivo”
e a alternativa da Biologia do Conhecer para o tratamento do vivo, em geral,
e do sistema imune, em particular. |